Como falar com crianças sobre separação

0 comentários

 

Até algumas poucas décadas atrás o divórcio era um grande tabu. Muitos casais mantinham-se por anos a fio em casamentos infelizes e sem amor apenas para preservar sua imagem diante da sociedade – especialmente as mulheres, quase sempre alvos maiores do julgamento de terceiros - ou por conta de suas crenças religiosas. No mundo contemporâneo, contudo, as liberdades individuais se sobrepõem a esses aspectos, de modo que hoje o divórcio é uma prática comum e crescente. Segundo dados do IBGE, mesmo antes da pandemia o número de divórcios no Brasil apresentava crescimento. Nos últimos cinco anos a separação de casais aumentou em 75%.

Embora a separação seja uma opção melhor do que a manutenção de um casamento que não funciona mais e gera infelicidade, o processo não deixa de ser traumático. Especialmente para os casais com filhos pequenos. Para os pequenos o divórcio dos pais pode gerar angústia, duvidas, sentimento de culpa, entre outros . No momento que o casal com filhos decide que é chegada a hora de dar um fim a relação, é essencial que ambos coloquem suas diferenças e raiva de lado para que o processo seja o menos doloroso possível para adultos e crianças envolvidos.

Conversando com seus filhos sobre separação

Comunicar aos filhos sobre a decisão de se separar não é uma tarefa simples. Especialmente porque é comum que o casal envolvido no processo se encontre em um turbilhão de emoções. Ainda que não haja mais amor, a separação provoca um processo de luto, relacionado a perda da rotina e dos papéis construídos na relação familiar. Diante da perda, sentimentos como tristeza, raiva e angústia, se somam as dúvidas e receios quanto ao futuro. Por mais complicado que seja lidar com tudo isso, porém, quando o casal tem filhos é preciso engolir esses sentimentos e entender que embora o casal conjugal esteja sendo desfeito, o casal parental é para sempre.

Equilibrar a emoção e a razão é muito importante para que o ex-casal possa trabalhar juntos de forma a conduzir o processo da melhor forma para eles e os filhos, que mais do que uma perda de rotina e de papéis sociais precisam lidar com a dissolução de sua família. Na infância o núcleo familiar é o primeiro mundo que exploramos, conhecemos e entendemos. Quando essa base estruturante se desfaz, e o mundo conhecido da criança desmorona, os efeitos podem ser traumáticos e causar mudanças emocionais, favorecendo a ocorrência de transtornos de ansiedade, baixa autoestima e baixa qualidade de vida. Acreditar que a criança não está preparada para lidar com esse momento e aliená-la desse processo ou recorrer a histórias fictícias, como por exemplo, que uma das figuras parentais irá viajar durante um tempo, é uma péssima ideia que ao contrário de proteger os filhos, acabam por piorar a situação.

O ideal é ter uma conversa franca com os pequenos, utilizando linguagem adequada à idade deles para comunicar a separação, explicar os motivos e as mudanças que irão ocorrer na vida dele diante da decisão dos pais.

Além disso, é fundamental que os adultos pratiquem a escuta, permitindo que a criança se expresse, bem como respeitar os sentimentos dela, evitando minimizá-lo. Pratique a empatia e seja compreensivo com seu filho. Conflitos nesse momento levam apenas a mais confusão na cabeça das crianças e levar a um sentimento de culpa, como se eles fossem responsáveis pelo fato.

Algumas recomendações que vão te ajudar a ter essa conversa são:

  • Só conte ao(s) seu(s) filho(s) quando tiverem certeza da decisão;
  • Evitem brigas e discussões na frente da criança;
  • Embora a criança não precise saber de todos os detalhes, a verdade é fundamental. Seja claro com seu filho;
  • Isente a criança de qualquer culpa na decisão do casal;
  • Crie um ambiente de diálogo permitindo a criança se expressar;
  • Não faça chantagens ou pratique a alienação parental;
  • Informe a escola sobre a situação. É importante que a instituição de ensino saiba o que está acontecendo para agir corretamente diante da situação;
  • Por mais diferenças que o casal tenha, é essencial que estejam alinhados quanto a educação do filho, falando a mesma língua.

A literatura infantil como aliada na conversa sobre separação

Claro, colocando dessa forma essa conversa sobre divórcio ou separação com as crianças parece ser super simples. Sabemos, contudo, que não é bem assim. Como já colocamos acima, a separação é dolorida também para os adultos. Manter a razão nem sempre é fácil. Por isso, contar com materiais que contribuam para esse diálogo pode fazer toda a diferença na condução desse processo. Os livros infantis, por exemplo, são excelentes aliados nesse momento, sendo capazes de abordar o tema em uma linguagem que propicia o entendimento infantil sobre um assunto tão complexo.

Entre os livros infantis que falam sobre o divórcio, o Studio Pipoca destaca:

“Lá e Aqui”, Odilon de Moraes e Carolina Moreyra – O livro é baseado na história real do casal de autores. Em um momento em que estavam quase se separando, passaram a imaginar como seria para o filho deles vivenciar essa situação. Cada página do livro representa a casa do pai e da mãe.

“Mamãe é grande como uma torre”, Brigitte Schär, Jacky Gleich – Abordando o divórcio pelo olhar infantil, o livro é repleto de metáforas colocadas de modo poético, abordando o tema da solidão e da importância dos pais na vida das crianças com sutileza e beleza.

“A Separação”, Pascale Francotte – Outra obra que aborda a separação a partir do ponto de vista infantil. Na história, o filho percebe que algo está diferente entre os pais e passamos a ver o desenrolar dos acontecimentos a partir da vivência da criança. O livro mostra como a manutenção de um casamento pode gerar sofrimento e que a separação é uma solução.

“É tudo família”, Alexandra Maxeiner, Anke Khul – Esse livro já apareceu aqui em nosso blog em nosso texto sobre famílias LGBTafetivas. A obra mostra que existem famílias de todos os jeitos e não apenas seguindo o padrão “comercial de margarina”.

“O Reino Partido Ao Meio”, Rosa Amanda Strausz – Com muita poesia essa obra aborda o divórcio de maneira lúdica, contando a história de um reino partido ao meio por um dragão e mostrando como é possível manter-se inteiro mesmo dividido ao meio.

“Duas Casas”, Roseana Murray - Utilizando metáforas para falar sobre divórcio de forma indireta, a obra aponta um caminho para que as crianças entendam a nova dinâmica e rotina, agora com duas casas.

“Paulina”, Maria Eugênia - Mostrando o divórcio a partir da perspectiva infantil, o livro se destaca por abordar o tema com muita leveza, de maneira divertida e com uma mensagem positiva.

“Brincar de ser feliz”, Libby Ress – Esse livro foi escrito pela autora quando ela tinha apenas nove anos de idade, com base em sua própria experiência – os pais de Libby se divorciaram quando ela tinha seis anos. Para enfrentar a situação de um modo prático, a autora criou uma lista de ações que se tornou um livro.

E você? Tem alguma sugestão de livro infantil ou conteúdos em outros formatos que podem ajudar os pais a conversarem com as crianças sobre divórcio? Compartilha com a gente! Com paciência, diálogo e bom senso, essa conversa fica muito mais fácil e o processo menos traumático para todos.

Até a próxima!

Deixe um comentário

Todos os comentários serão validados antes de serem publicados
Parabéns, agora você faz parte!