Por que precisamos repensar a paternidade?

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Uma das faces mais evidentes do patriarcado é a designação compulsória das mulheres como responsáveis pelos cuidados com a casa e os filhos. Como resultado elas, na maioria dos lares, precisam lidar com a dupla jornada - quando não tripla – e um extenuante carga mental. Ainda hoje é comum que quando homens cumpram suas obrigações como pai e parceiro, sejam aclamados por serem prestativos e ajudarem suas esposas. Afinal, ao homem caberia o papel de provedor, aquele que garante o sustento, que continua a se dedicar a carreira independente da chegada dos filhos e que se mantém distante das questões da casa.

O modelo de paternidade consolidado hoje no patriarcado é tóxico, sobrecarrega as mulheres e impõe características inatas aos gêneros, olhando com estranheza e deboche para as famílias e indivíduos que ousam ir contra o modelo predominante, como quando o homem assume prioritariamente as tarefas do lar e da criação dos filhos, enquanto a mulher trabalha fora. Nos últimos anos a discussão sobre a paternidade vem ganhando fôlego na esteira do crescimento das ideias feministas na sociedade. E isso é ótimo! Para construir um futuro livre das opressões de gêneros, discutir a paternidade é fundamental.

Repensar a paternidade é por todos!

A instituição família é uma construção histórica que, ao longo do tempo, se modifica a partir da influência das transformações sociais, culturais e da subjetividade. Assim, podemos afirmar que o modelo de paternidade praticado ainda hoje, tem suas origens na Modernidade. É nesse momento onde a família passa a ser nuclear e burguesa. A família burguesa do século XIX é urbana, com baixo índice de fertilidade e mortalidade, criando novos padrões de afetividade e privacidade. Ao homem caberia a responsabilidade pelo sustento econômico, sendo a autoridade máxima da família, enquanto a mulher cuidaria dos filhos. Com a desvinculação casa/trabalho, o pai passa a ser figura ausente na maior parte do dia. Esse ideal de família ganha outras roupagens com o desenrolar do século XX, mas sempre com a mulher assumindo o papel de criadora e cuidadora e o homem o papel de autoridade. A segunda onda do feminismo nas décadas de 1960/70, porém, chacoalhou as estruturas familiares, dando início a transformações sociais importantes.

A ideia de que elas são as principais responsáveis por cuidar dos filhos, contudo, persiste, o que talvez ajude a explicar porque tantos homens ainda não encontrarem qualquer constrangimento em abandonarem seus filhos. No Brasil, estudos indicam cerca de 11,6 milhões de mãe solo, que não contam com qualquer ajuda dos pais de seus filhos. Esse modelo de paternidade ainda obriga as mulheres a cumprirem duplas ou triplas jornadas, sendo que elas trabalham, em média, 3,1 horas a mais que os homens semanalmente. É preciso considerar ainda a carga mental que elas estão submetidas ao assumirem sozinhas, a responsabilidade da gestão da casa e da família.

Sim, ser dono de casa e mãe, é um trabalho. Um trabalho ininterrupto, sem direito a férias ou descanso. Recentemente um grupo de mulheres conseguiu que o Linkedin, rede social ligada à vida profissional, passasse a aceitar “mãe que fica em casa” como cargo profissional. Agora, são os homens que buscam esse reconhecimento. Porque a paternidade atual não é cruel apenas com as mulheres. Aqueles que optam por cuidar dos filhos e da casa enquanto suas mulheres se dedicam à carreira, são constantemente taxados como “semi-homens”, fracassados ou preguiçosos. Afinal, o homem deve ser o provedor. Além disso, o modelo distancia o pai da casa e de seus filhos, contribuindo para a construção da figura masculina como “durona” e emocionalmente distante. Homem não chora, não demonstra afeto e não deve ter sua liderança contestada. Por fim, não podemos deixar de lado o efeito sobre as crianças, que crescem aprendendo a reproduzir esses papéis em suas vidas, não raro enquanto se reprimem e sofrem com o distanciamento emocional das figuras paternas.

Repensar a paternidade é uma tarefa urgente. A cada dia fica mais claro que os antigos papéis de gênero estabelecidos já não comportam o mundo atual. É preciso mudar, pelas mulheres, pelos homens e pelas crianças. Assim, todos saem ganhando.

Construindo novas paternidades

Desconstruir uma visão de mundo que é nos passada como correta e única possível ao longo de nossas vidas não é uma tarefa simples ou indolor. É preciso se libertar de conceitos pré-estabelecidos e estar pronto para abraçar novas ideias, hábitos e ações. Estudos e pesquisas realizadas em diferentes partes do mundo vêm comprovando que a paternidade ativa é benéfica aos pais, mães e crianças. A paternidade ativa é definida em documento da Unicef como a relação entre pais e filhos que vá além do sustento financeiro, participando dos cuidados diários, educando, estimulando e estabelecendo vínculo afetivo e emocional. A participação ativa da figura paterna aumentam a autoestima e confiança da criança, contribuindo para um melhor desempenho escolar e desenvolvimento emocional, promovendo o bem estar dos pequenos. Além disso, filhos homens de pais presentes tem maior probabilidade de repetirem esse comportamento com seus filhos, em um ciclo positivo.

Estudos também demonstraram que a paternidade ativa: contribui para o aumento da satisfação com o trabalho dos homens, e melhora na saúde física e mental. As mulheres são uma das maiores beneficiadas com a existência de pais presente, obtendo melhor desenvolvimento de carreira e emancipação financeira, melhor saúde física e mental, assim como estão menos sujeitas a episódios de violência doméstica. A paternidade ativa é um antídoto para o patriarcado.

Felizmente, já tem muita gente boa nesse caminho! Nas redes sociais, por exemplo, encontramos muitos perfis geridos por homens que buscam promover a paternidade afetiva enquanto desconstroem antigos modelos.

Vale muito a pena conhecer e se inspirar nos seguintes perfis:

Outra dica imperdível para te ajudar nessa jornada é o documentário “ Pais”, de Bryce Dallas Howard, lançado em 2020, pela Apple TV+. A obra apresenta a história de cinco pais em diferentes partes do mundo, todos eles com uma coisa em comum: são modelos positivos de pais que participam ativamente da vida dos filhos.

Além disso, vale sempre reforçar que os livros são grandes aliados na construção de novas paternidades. Lembre-se que eles não precisam abordar especificamente o paternar. Livros sobre educação afetiva e desenvolvimento infantil, por exemplo, ensinam e inspiram.

Vamos juntos construir novos modelos de paternidade? Ter relações familiares saudáveis e benéficas a todos é possível!

Até a próxima!

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