Maree, mãe da Ana Helena 7 anos, Areta 3 anos e Amara 1 ano.

0 comentários

Você sempre teve o desejo de ser mãe? Conte um pouco sobre a sua família.

Sempre! Minha mãe teve cinco filhas e, apesar das dificuldades de criar tanta gente, eu sempre senti que ela curtia ser mãe, me fazendo pensar que era algo que eu fosse gostar também. Meu primeiro passo foi casar com o Rafa, que já tinha uma filha - na época, a Ana Helena não morava com a gente. Com seis meses de casamento, engravidamos da nossa primeira filha, Areta e logo em seguida, nossa segunda, Amara. E não posso garantir que paramos por aí hahaha

Mas uma coisa que eu tenho certeza, é que nada me deixa mais feliz e realizada de viver tudo que a maternidade traz.

Quando você era criança, como você definia família? E hoje em dia, após formar um núcleo familiar?

Eu cresci achando que família era aquele grupo que podia tudo, que aguentava tudo por amor, que aceita tudo. Mas agora, vejo que família é qualquer grupo de pessoas que se ame, mas que alie o amor ao respeito, acolhimento e tolerância. Nossa família é aquele lugar onde a gente se sente a vontade pra ser quem é; onde lembramos porque estamos juntos e onde queremos chegar, juntos.

Vivemos em uma sociedade marcada pelo racismo estrutural, que violenta e desumaniza corpos pretos. Como você sente que essa realidade afeta a experiência de maternidade/paternidade de mães e pais pretos?

Olha, a gente sabe bem o que é isso! Exercer maternidade/ paternidade responsável requer muita doação espontânea, mas também arranca coisas de nós à força.

Como pais pretos, isso alcança níveis elevados. Vivenciamos histórias bizarras e cruéis que afetaram nossa família e tiveram como raiz o racismo estrutural, por exemplo, o parto da Areta, que foi extremamente violento – as mulheres negras são a maior parte do grupo de mulheres que sofrem algum tipo de violência obstétrica - e o fato do Rafa ser quase sempre invisibilizado e menosprezado como pai responsável preto - se já é difícil pra uma mulher ouvir "mãezinha" durante a reunião ou consulta médica, imagina um pai.

Mas isso faz com que nossa família seja cada vez mais ativa no sentido de propagar esse modelo onde todos se amam, se apoiam e trabalham pro sucesso e bem estar de todos. Cansa, mas eu e o Rafa amamos viver assim e aí acaba se tornando um prazer ajudar e estimular outras famílias.

Além de ser mãe de três, você é tricoterapueta naturalista, tem uma linha de cosméticos e ainda encontra tempo para cantar. Mulher, mãe, esposa e empreendedora. Como se desdobra para dar conta de tudo? Consegue se colocar em primeiro lugar em algum momento?

Acho que o mais importante foi entender que eu não dou e nunca darei conta de tudo. É aquela típica cena do cara do circo tentando rodar todos os pratos em cima daquelas varetinhas. Na semana que eu preciso me doar mais pra empresa, sei que o Rafa vai ter que dar mais atenção pras meninas e com isso, o casal fica meio de lado. Ou quando separamos um fim de semana pra curtir a família com celular desligado, temos consciência de que vamos vender menos e precisaremos compensas nas próximas semanas, e assim vai. E por mais doido que pareça eu me vejo em primeiro lugar nisso tudo! Eu trabalho com o que amo, realizei e tenho o privilégio de exercer a maternidade que eu acredito, eu tenho um homem lindo, responsável e parceiro do meu lado e ainda encontro tempo pra cantar! É aí que eu me vejo como a equilibrista de pratos e já que nenhum deles caiu, considero que tá dando tudo certo!

Você sente que a chegada dos filhos mudou o conceito que tinha de família? Como? É importante repensarmos os modelos familiares tradicionais?

TOTALMENTE. Criar mini cidadãos me fez repensar tudo! O quanto é importante cuidar da natureza; o quanto é importante erradicar a violência, a intolerância e tudo que afasta as pessoas e o quanto eu hoje, estou criando as pessoas que farão escolhas e tomarão decisões na sociedade de amanhã.

E elas me ensinam todo dia que não existe mais espaço pra tradicionalismos e que ficar presos no passado só vai nos deixar presos lá. As crianças são o futuro e tê-las aqui, florescendo bem na minha frente me dá esperança de que tudo vai ficar bem.

Nas redes sociais, você e seu marido demonstram uma parceria muito grande. Qual a importância desse apoio para não pirar e se esgotar no dia a dia?

A palavra que define o Rafa é parceria. Desde o dia em que nos conhecemos, ele me apoiou e incentivou então eu conto com ele pra tudo desde que éramos apenas amigos! Hoje sendo autônomos, com as crianças e um casamento de quatro anos, a gente precisa ter muita sintonia e aprender que no final do dia, somos nós pra tudo! A gente sempre fala que os sucessos que temos individualmente seriam alcançados de qualquer forma, mas termos um ao outro faz o caminho ser mais leve e nunca solitário.

Qual o grande legado que gostaria de deixar para as suas filhas? Que mundo você gostaria que elas encontrassem quando adultas?

Como mulher negra, entendo que ao longo da história, mulheres incríveis vêm lutando e construindo um caminho de justiça e igualdade e acredito que eu tenho dado continuidade a esse trabalho.

Espero que minha vida sirva de inspiração pra que elas três continuem essa corrente e assim, quando elas forem adultas, elas e seus colegas de escola, primos e amiguinhos encontrem um mundo mais acolhedor e seguro pra os diferentes tipos de seres humanos e que a desigualdade e a intolerância sejam algo tão superado que a geração depois deles, possa se doar pra outras causas e discussões.

Maree, da conta Instagram @diasmaree

Deixe um comentário

Todos os comentários serão validados antes de serem publicados
Parabéns, agora você faz parte!