A importância da leitura na primeira infância

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Quando nos tornamos pais idealizamos um monte de situações que acabam desmoronando quando nos chocamos com a realidade. Claro que gostaríamos de ser perfeitos, mas logo aprendemos que perfeição não existe. É muito importante entender isso para não ver crescer um sentimento de frustração daqueles que nos derruba. Você está tentando fazer o seu melhor. Se não deu para fazer todos os itens da lista das “20 melhores práticas na criação de filhos” que leu na internet, está tudo bem.

Existe, porém, uma atividade que precisa estar presentem em sua rotina: a leitura de histórias, mesmo quando seu filho ainda é um bebê. Contar histórias é uma prática tão antiga quanto poderosa, e é muito importante para o desenvolvimento na primeira infância.

A importância da leitura na infância

A humanidade é uma espécie apaixonada por histórias. Desde os primórdios desenvolvemos formas de contar e registrar feitos, emoções, mitos, etc. Através das histórias, aprendemos, nos expressamos, exercitamos a imaginação e nos conectamos ao outro. É muito comum encontrar quem acredite que contar histórias na primeira infância, não faz qualquer diferença, afinal, os bebês ainda nem sabem falar, muito menos tem capacidade de entender uma estrutura narrativa. Pensar assim é um equivoco. Diversos estudos e pesquisas mostraram que contar histórias na primeira infância é uma atitude essencial para o bom desenvolvimento dos pequenos.

A leitura em voz alta permite que o bebê tenha contato com outras dimensões da linguagem, tanto oral quanto escrita. Eles percebem que a fala do dia a dia é diferente da utilizada durante uma leitura e são capazes de notar que existe uma cadência, ritmo e emoção, além de um início, meio e fim.

Outro ponto importante com relação à leitura na infância é o poder que esse hábito tem de nos ligar emocionalmente com o próximo. No mundo das telas em que vivemos, estamos a um clique de distância das pessoas e ao mesmo tempo cada vez mais desconectados delas. O outro é quase como um avatar que vemos em nossas redes sociais. Veja bem, o mundo virtual é incrível em uma série de aspectos. A potência de uma rede de comunicação rápida que abrange o mundo todo é incalculável. Mas é preciso tomar cuidado para não nos esquecermos de onde vivemos: no mundo real.

E esse mundo real é coletivo, o que implica que temos que ser capazes de conviver com o outro, de ter empatia, solidariedade e capacidade de trabalho em grupo. Foi através da coletividade que a humanidade prosperou. As histórias tem um papel importante para a manutenção desse coletivo, sendo capaz de conectar e criar identificação entre um grupo de pessoas. Na relação entre pais e filhos, a leitura de histórias na primeira infância também realiza essa aproximação, contribuindo para criar afeto e memórias.

Quando devo começar a ler para o meu filho?

Ler histórias para o seu filho é um dos melhores hábitos que pode incluir na rotina conjunta de vocês. Os benefícios para o desenvolvimento da linguagem e comunicação são altos e através das histórias exercitamos o olhar sobre o mundo, a sociedade e o próximo.

Outro ponto importante sobre o hábito da leitura, é que, segundo especialistas, para alguém se interessar por livros na vida adulta, é essencial que a palavra escrita seja apresentada desde cedo. Isso significa que ler livros em berçários para crianças que ainda nem sabem falar, pode ser o caminho mais promissor para formar um futuro leitor. Quando um bebê manuseia um livro, mesmo sem saber ler, é capaz de identificar a existência da grafia, estabelecendo uma relação direta com a linguagem escrita.

Contudo, a leitura não precisa começar apenas no berçário. Entre o terceiro e quinto mês de gestação o feto desenvolve o aparelho auditivo. A partir daí as mães e país já podem começar a contar histórias! Ler histórias durante a gravidez é benéfico para o bebê, além de contribuir para aumentar a ligação entre pais e filhos.

A leitura e a formação cultural

Assim, a leitura cumpre papel importante no desenvolvimento da comunicação. Mas não é só isso. Vale lembrar que nessa fase da vida nosso cérebro é como uma esponja. Portanto as histórias também são ferramentas para iniciar a apresentação de aspectos culturais e de valores, bem como ajudar a tratar de temas que ainda são complicados para os pais.

Divórcio, desigualdades sociais, como nasce o bebê, famílias com dois pais, famílias com duas mães, transgêneros... Todos esses são temas “espinhosos” e que podem surgir em conversas com seus filhos. Lembre-se que estamos na Era da Informação, não existem assuntos intocáveis. Ainda que os pais das crianças pequenas de hoje já tenham tido uma educação muito mais aberta, abordar esses temas com crianças não é uma tarefa simples. Sempre bate aquela dúvida se é o momento certo, ou se será capaz de usar a linguagem adequada. Aqui as histórias e os livros se mostram grandes aliados, sendo capazes de abordar alguns desses temas de forma didática, adequada e sem deixar transbordar alguns preconceitos que ainda carregamos.

No Brasil os livros ainda são capazes de ajudar em uma tarefa muito importante e que se mostra cada vez mais urgente: a descolonização do pensamento e da cultura. Embora o país tenha conquistado sua independência há quase duzentos anos, ainda existem forte traços de uma mentalidade colonizada. Isso se explicita na valorização daquilo que vem de fora – o tão falado complexo de vira-latas –, em especial da Europa Ocidental e Estados Unidos, mas também em nosso racismo estrutural e no apagamento dos povos indígenas. O sonho de parte da sociedade brasileira parece se transformar em qualquer coisa que não brasileiro. Esse é um problema grave que impede olharmos e valorizarmos para a nossa terra, que é riquíssima de tantas formas, bem como imaginarmos novas soluções para os problemas e situações que aqui vivemos. Descolonizar é muito importante, e os livros tem esse poder, apresentando o Brasil que ignoramos durante muito tempo para as crianças e até para os seus pais.

Algumas dicas de editoras e livros infantis

A editora Biruta, especializada no público infanto-juvenil, conta com um catálogo amplo e diversificado com livros e autores que abordam esses temas. Outra indicação é o selo Boitatá, da editora Boitempo, com obras para crianças que abordam questões como brasilidade, preconceito, diversidade, política, etc. Vale destacar também o trabalho da editora Pallas, com foco na cultura afrodescendente, assim como da editora Peirópolis, que conta com livros infanto-juvenis com temas ligados a cultura nacional e povos indígenas.

Além de todas essas editoras, com seus catálogos amplos e diversos, gostamos e recomendamos muito toda a obra de Todd Parr, que aborda diferentes temas do universo infantil e a relação das crianças com elas mesmas, seus sentimentos, o próximo e o planeta.

Uma autora que você não pode deixar de conhecer, também, é Nadia Fink, que tem uma coleção incrível onde conta a história de diferentes personalidades – como Frida Khalo, Clarice Lispector, Violeta Parra, Eduardo Galeano, etc - para as crianças.

Para além da leitura em casa, como ter acesso para mais livros infantis sem gastar muito?

São diversas as iniciativas que ocorrem com o foco na leitura nas todas grandes cidades, e contação de histórias para os pequenos. E muitas delas são gratuitas! Abaixo separamos algumas delas que conhecemos aqui em São Paulo. Se você ainda não as conhece, o que está esperando? Vamos viver nossa cidade! 

Na Biblioteca Villa Lobos, por exemplo, acontecem contações de histórias todos os sábados e domingos, das 10:30hs às 11:15hs. A biblioteca fica dentro do parque, ou seja, dá para se programar para curtir a atividade e depois ter um dia incrível ao ar livre. Outras bibliotecas municipais e equipamentos públicos também contam com programação para o público infantil. Vale muito a pena ficar por dentro do que acontece na Biblioteca Mario de Andrade e também do Centro Cultural São Paulo .

As bibliotecas municipais, aliás, são uma excelente opção para ter sempre histórias diferentes para contar sem precisar comprar livros. Infelizmente no Brasil os livros, mesmos os infantis, são caros. Ao utilizar nossas bibliotecas você economiza, ajuda o planeta e mantêm a relevância desses equipamentos tão importantes.

Outra dica que vai nesse mesmo sentido é promover trocas de livros com outras mães, como por exemplo, as dos colegas da escola de seu filho. Esse “grupo de leitura” também pode servir para estreitar laços e fomentar a comunidade.

Também não podemos deixar de recomendar a iniciativa do Banco Itaú, que anualmente realizar a doação de livros infantis. Todo mundo pode solicitar, basta preencher o formulário e você recebe um livro em casa gratuitamente. Nesse ano eles mandaram todos livros em PDF pelo whatsapp por causa da pandemia.

Ainda é possível assinar clubes de leitura que por um valor mensal enviam todos os meses um novo livro, como Leiturinha e o Quindim. É uma opção muito interessante inclusive como presente de aniversário, fugindo da lógica dos brinquedos de plástico. Os clubes de assinatura são ótimos porque além de garantir boas leituras, ainda apresenta um monte de autores e obras que poderiam passar despercebidos.

E por fim: não se esqueça dos sebos e das livrarias de seu bairro, afinal, apoiar os negócios locais é sempre importante e uma forma de fazer a diferença!

E você, lê para o seu filho? Conta pra gente qual a história preferida do seu pequeno!

Até a próxima!

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