O Brasil está em chamas – Os impactos ambientais das queimadas

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Em 19 de agosto de 2019 o céu da cidade de São Paulo foi tomado por uma grande nuvem de fumaça vinda da Amazônia que transformou o dia em noite. O inusitado fenômeno chamou a atenção do mundo para o que vinha acontecendo na maior floresta tropical do mundo. A região amazônica há muitos é alvo da ganância humana. A grilagem de terra, com a abertura de áreas para ocupação humana e instalação de propriedades rurais, bem como a atuação de mineradores e madeireiros ilegais são um fenômeno antigo com fortes impactos socioambientais que afetam os povos tradicionais e promovem a destruição do bioma.

Durante esse século, porém, a maior atenção, pressão e conscientização do planeta quanto às questões ambientais, contribui para a tomada de medidas mais efetivas contra a degradação da floresta, levando a conquista de quedas significativas nos índices de desmatamento. Em 2019, tudo mudou. Na esteira do desmonte das políticas e órgãos ambientais no país, testemunhamos uma grave ofensiva contra a floresta, capaz de produzir um aumento de 30% nos focos de incêndio na região. Mesmo diante da indignação mundial, porém, o Brasil vem conseguindo a proeza de agravar ainda mais a situação.

2020: o ano do Brasil em chamas

A essa altura já não é segredo para ninguém que iremos sentir de forma cada vez mais contundente os efeitos das mudanças climáticas. Nos últimos anos vimos os aumentos das ocorrências de eventos extremos em diferentes locais do mundo. Em terras brasilis, 2020 foi marcado por um inverno atípico. Grande parte do país, em especial o centro-oeste, enfrentou temperaturas acima da média dos últimos 13 anos durante a estação, bem como sofreu com a estiagem. O clima quente e seco predominante foi um dos fatores que contribui para formar um país em chamas.

Três dos nossos principais biomas – Amazônia, Pantanal e Cerrado – vem sofrendo com destruição causada pelo fogo. Os números até o momento são assustadores e tristes:

O fogo, contudo, não esteve restrito a essas regiões. O estado de São Paulo, por exemplo, também registrou aumento alarmante dos incêndios florestais em 2020. Foram 109% mais focos de incêndio no estado em comparação a 201. Se o clima seco que marcou o inverno desse ano contribuiu para potencializar esse cenário, é importante não cair na narrativa fácil de culpar a natureza. A ação humana tem papel central para o país estar em chamas, em mais uma clara mostra de que muitos parecem não compreender ou negar a crise ambiental que estamos enfrentando.

No Brasil a queimada controlada é uma técnica tradicional utilizada em propriedades rurais para abrir áreas e limpar pastagens. Mesmo com os esforços de técnicos e pesquisadores agrônomos para demonstrar como o uso contínuo do fogo degrada o solo e do aumento da dispersão de conhecimentos sobre técnicas substitutivas, muitos produtores ainda recorrem ao fogo, por sua facilidade e aparente “menor custo”. A “culpa”, porém, não deve recair apenas nos ombros dos produtores rurais. Não podemos esquecer que o fogo também é utilizado por criminosos, como os grileiros, que usurpam terras públicas visando seus interesses privados e não tem qualquer receio em utilizar a violência para atingir seus objetivos.

Por fim, infelizmente não podemos deixar de colocar que essa agenda ambiental pautada na destruição dos biomas e a promoção de uma requentada “Marcha Para o Oeste” baseada em uma visão anacrônica de “desenvolvimento” foi referendada nas urnas pelos brasileiros em 2018. O governo atual sempre deixou claro suas ideias sobre as políticas e órgãos ambientais: um entrave ao “crescimento” e ao “progresso” do país; uma esfera dominada por ONGs e interesses estrangeiros; uma porteira que precisa ser aberta para a boiada passar. Na prática isso vem se traduzindo na busca por mudanças em regulamentações e no desmonte de órgãos como o Ibama e ICMBio , além da ocupação de cargos chaves para a política ambiental do país por pessoas com qualificação e intenção questionáveis.

A situação é tão surreal que até mesmo dados oficiais de instituições respeitadas, como Inpe, são questionados pelos ocupantes do poder executivo por mostrarem o resultado desastroso das políticas voltadas ao meio ambiente implantadas até aqui. O Brasil está em chamas e o planeta corre perigo!

Os impactos socioambientais das queimadas no Brasil

Nosso planeta é como um grande organismo vivo, onde cada forma de vida e os diferentes elementos químicos se combinam em um equilíbrio tão magnífico como delicado. Uma dica ótima para entender melhor isso sobre essa funcionamento sistêmico do planeta é a série One Strange Rock, da National Geographic. Essa é uma percepção cada vez mais pulverizada entre as pessoas, mesmo com a existência daqueles que ainda tem a pachorra de defender a terra plana. E isso é importante. Não basta falar às pessoas que elas precisam proteger o meio ambiente e ter um relação sustentável com estes, mas mostrar o porquê elas precisam fazer isso. Felizmente vimos nos últimos anos à ascensão de uma nova geração que parece ter maior clareza sobre os impactos da degradação que promovemos no planeta bem com da necessidade urgente de combatermos as mudanças climáticas. Essa geração, contudo, ainda está longe de ocupar posições responsáveis pelas tomadas de decisão no mundo. O resultado é que mesmo que em 2019 tenhamos registrado os maiores protestos do mundo com foco na causa ambiental, levando milhões as ruas, isso pouco parece ter influenciado os governantes das nações como o Brasil, EUA, entre outros.

É inadmissível para qualquer um com o mínimo de consciência coletiva que, diante da urgência em diminuirmos a emissão de gases estufa e mantermos as florestas do mundo em pé, o Brasil bate recorde de queimadas e coloque fogo nos seus principais biomas. A consequência dessa atitude será global. Quando um país abre mão das boas políticas ambientais, ele está colocando em risco a população de todos os demais. Hoje existe uma campanha internacional que visa denunciar os crimes ambientais que vem sendo praticados no país. Além disso, o aumento do desmatamento e dos focos de queimadas vem ameaçando a participação do país no mercado externo. O celebrado acordo entre União Europeia e Mercosul, fruto de duas décadas de negociação, por exemplo, está em risco.

Sem uma mudança de postura, o Brasil corre sérios riscos de tornar-se um pária mundial nos próximos anos. Em um país marcado pela profunda desigualdade, os potenciais efeitos de embargos e taxações promovidas por países estrangeiros teriam efeitos catastróficos, esgarçando ainda mais o tecido social. Não podemos deixar de lado também como os efeitos da falta de uma política ambiental focada na sustentabilidade afetam com maior força as camadas mais frágeis da sociedade, como os povos originários e tradicionais. Nunca é demais relembrar a tragédia de Belo Monte. Mesmo aqueles que moram nas grandes cidades e longe dos focos de fogo, as queimadas causam prejuízos na qualidade de vida e bem-estar. As fumaças dos incêndios chegam às cidades, prejudicando a qualidade do ar e aumentando o risco de doenças respiratórias. Por fim, mas não menos importante, a perda de biodiversidade é uma das consequências mais nefastas das chamas. Enquanto você lê esse texto é plenamente possível que espécies de plantas e animais que ainda não conhecemos estejam pegando fogo. Sim, as fotos dos animais queimados e sendo tratados por voluntários cortam o coração, mas as consequências aqui podem ser muito maiores, levando a um desequilíbrio difícil de ser restaurado..

O que fazer diante das chamas?

Diante desse cenário é fácil nos sentirmos impotentes. Afinal, o que fazer para mudar essa situação? Primeiro: se você não tem treinamento nem preparo para combater incêndios, não tente bancar o herói. É possível ajudar sem estar na linha de frente!

Como?

  • Participando de ações para pressionar mudanças no rumo das políticas ambientais em nível federal, estadual e municipal;
  • Usando seu poder de escolha quanto consumidor para valorizar marcas e produtos ambientalmente responsáveis enquanto boicota marcas e produtos que agridem o planeta;
  • Realizando doações, seja monetária ou de outros recursos, para iniciativas brigadistas ou voltadas às regiões afetadas pelo fogo – lembre-se sempre de pesquisar antes de doar.
  • Reduzir o consumo de carne. Em grande parte as queimadas estão relacionadas à criação de gado de corte. O fogo é utilizado na formação de pastos ou abertura de áreas para o cultivo de soja ou milho, principais alimentos utilizados na produção de ração para os rebanhos. Mudar o rumo ambiental do planeta implica, obrigatoriamente, em mudarmos nosso prato. Se você não está disposto ou não pode deixar a carne de lado de vez, tente pelo menos reduzir o consumo da proteína animal. Uma boa pra se inspirar e saber mais sobre os impactos da indústria da carne é a campanha Segunda Sem Carne.

Cuidar do planeta é dever de todos nós! Como a nossa união somos capazes de mudar nossa rota e caminhar na construção de uma Terra sustentável e em equilíbrio!

Vamos juntos!

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