Primavera das Mulheres: a cara do novo feminismo

0 comentários

 

O feminismo não é uma moda passageira que ocupa momentaneamente lugar de destaque nas redes sociais e até mesmo nas mídias tradicionais. No Brasil, desde 2015 a luta das mulheres voltou a ser protagonista nos debates sobre os rumos da sociedade.

A Primavera das Mulheres deu origem há um “novo” feminismo que se caracteriza pela enorme capilaridade e diversidade, atingindo mulheres das mais diversas camadas sociais, idade, cultura e visões de mundo, que se unem em torno de algumas pautas em comum, em especial o questionamento aos papéis de gênero.

As raízes desse movimento, assim, estão mais próximas da segunda onda do feminismo das reivindicações pelos direitos civis da década de 1970, que da primeira onda, que possuía forte recorte classista e ligações aos movimentos operários do final do século XIX.

Não podemos, porém, ver esse novo momento como uma simples reprodução do passado, ou como uma onda “retrô” ou “vintage” passageira, dessas que de tempo em tempo invadem as rádios e indústria do entretenimento no geral. Embora muitas das inspirações desse novo feminismo venham do passado como, por exemplo, as obras de Simone de Beauvoir, há uma identidade única e ligada ao tempo atual que é muito clara quando olhamos mais de perto.

Precisamos falar de Simone de Beauvoir

Antes de continuar precisamos falar de Simone de Beauvoir, que já apareceu no nosso blog no artigo Porque Eu Escolhi Não Saber.... Simone De Beauvoir foi uma das grandes intelectuais francesas do século XX, uma das fundadoras da escola existencialista - junto com seu cônjuge Jean-Paul Sartre - que em 1949 lançou “O Segundo Sexo”.

É nesse livro que Simone escreve a famosa – e tão deturpada pelos críticos – frase: “Ninguém nasce mulher: torna-se”. Existem muitos conteúdos na internet que ajudam a introduzir e compreender o pensamento da filosofa, você pode conferir aqui ou aqui. Não é exagero afirmar que “O Segundo Sexo” foi responsável por formar a base dos movimentos feministas que surgiram desde então.

Claro, novas discussões surgiram, bem como novas autoras, mas a atualidade e importância do pensamento de Simone de Beauvoir permanecem, uma vez que ela levantou a questão fundamental dos papéis de gênero.

Os papéis de gênero e o(s) novo(s) feminismo(s)

O mundo mudou muito nas últimas décadas. A queda do Muro de Berlim em 1989 e o consequente fim da União Soviética criou a ilusão de que a democracia liberal era a grande vencedora da história. Não há como duvidar que esse modelo trouxe avanços importantes nas mais diversas áreas, basta olharmos os principais índices socioeconômicos no decorrer do século passado. A situação da mulher na sociedade se transformou rapidamente ao longo das décadas, havendo diversas conquistas em especial após o fim da segunda guerra mundial. Direitos importantes foram alcançados em diversos países.

Apesar desses avanços, contudo, os papéis de gênero histórica e culturalmente estabelecidos, continuaram a relegar as mulheres o papel de cidadãs de “segunda classe”, motivando a submissão, o desrespeito e a violência.

Não é só uma questão de desigualdade salarial no mercado de trabalho. Esse e um problema grave, mas é mais que isso.

É no dia a dia que cada mulher sente na pele o machismo estrutural. É ter que pensar que roupa vai sair para não ser assediada, é temer andar na rua sozinha à noite, é ter que cumprir dupla jornada realizando o trabalho de casa, é não ser respeitada, é ser silenciada.

Se você sente tudo isso, e acredita que essa realidade deveria mudar, você é feminista.

Ao contrário do que os discursos de ódio e reacionários querem fazer a sociedade acreditar feminismo não é sobre a superioridade das mulheres ou perseguição aos homens – tadinhos, né? Tão oprimidos! – mas sim a busca pela igualdade entre gêneros. Queremos ser livres! Queremos ser quem somos, que as nossas potências e preferências sejam respeitadas, que nossos corpos e nossas vontades sejam respeitadas, que parem de nos matar!

Os papéis de gênero são um instrumento cruel porque condicionam a cada um de nós, homens e mulheres, a assumir uma posição e representar papéis definidos em uma cultura do passado, onde a força física era um aspecto importante – e dai o papel de dominação patriarcal.

Quem explica de forma brilhante essa questão é a intelectual nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie. Depois corra pro Youtube para ver a palestra dela no TEDX.

 

Chimamanda entende que os papéis de gênero são uma construção e, portanto, cabe a todos nós assumir a tarefa de modificá-lo na educação das próximas gerações. Além disso, é uma intelectual mulher e negra, sofrendo uma dupla opressão na pele, o que torna seu trabalho e reflexões ainda mais relevantes.

O feminismo é pop, o pop não poupa ninguém

Ao focar nos questionamentos sobre o papel de gênero, uma opressão que atinge a todas as mulheres independente de suas origens, o novo feminismo atingiu um alcance incrível, e mais que isso, se tornou um movimento global.

Não é só no Brasil que as discussões sobre gênero tomaram as conversas do dia a dia, as redes sociais, os jornais e os produtos culturais. No mundo todo o movimento se fortalece. Hoje o feminismo é falado e debatido inclusive no horário nobre das grandes mídias, em especial aquelas mais próximas às pautas progressistas.

Nos Estados Unidos, por exemplo, um dos grandes potencializadores da organização das mulheres foi o movimento #MeToo que denunciou abusos e assédios em Hollywood e vem transformando a indústria cinematográfica – mais lentamente que gostaríamos. Tornou-se comum também que celebridades estadounidenses se declarem e defendam as pautas feministas, como é o caso da genial Ellen DeGeneres, comediante, apresentadora de um talkshow de enorme sucesso, defensora dos direitos humanos e lésbica. Ellen leva a discussão sobre o feminismo para o grande público, e não só ela, outras celebridades, como as atrizes Ellen Page, Emma Watson e Jameela Jamil, são alguns exemplos de famosas que assumem e defendem publicamente o feminismo.

Jameela, aliás, já fez discursos contundentes contra o patriarcado tóxico, além de ser fundadora da iniciativa I Wheigh, que defende a inclusividade radical.

Para além do mundo das grandes celebridades da indústria do entretenimento, o feminismo também continua a influenciar e ser o ator do trabalho de muitas artistas pelo mundo, como a jovem fotógrafa francesa Charlotte Abramow. Conheça e se apaixone pelo trabalho dela: 

 

No Brasil, são diversas as figuras públicas que também tem defendido pautas feministas publicamente. Vale muito a pena conferir a entrevista da cantora Ludmila na edição de janeiro de 2020 da revista Marie Claire, onde causou furor ao sair na capa com sua esposa.

Outra figura nacional que vem contribuindo muito para o debate, trazendo a perspectiva da mulher negra é a filósofa Djamila Ribeiro, autora dos livros “ Lugar de Fala”, “Quem Tem Medo do Feminismo Negro?” e “Pequeno Manual Antirracista ”, além de ser colunista na Folha de São Paulo.

O posicionamento dessas pessoas que estão inseridas na indústria cultural de alguma forma é muito importante, ajudando a furar bolhas e levar a mensagem para um maior número de pessoas, o que é fundamental se queremos mudanças.

Acredito que muitas mulheres tem se descoberto e assumido como feministas graças a todo esse movimento.

Porque é preciso entender: ser feminista em mundo patriarcal, não é uma escolha, mas uma necessidade. E provavelmente você é feminista e nem sabe! Se você torceu o nariz para a minha afirmação e acha que as coisas não são bem assim, que até concorda com as ideias, mas acha que o feminismo é muito radical para você, te aconselho a ler o excelente livro “Você já é Feminista!”, que conta com textos de diversas autoras abordando temas variados sobre a questão. Acessa essa resenha para saber mais.

Mulheres de todo o mundo, uni-vos!

Aqui no Studio Pipoca o feminismo é um dos nossos valores inegociáveis, junto com a sustentabilidade e o consumo consciente.

E nesse mês de março, onde celebramos o Dia Internacional da Mulher, o feminismo vai tomar conta do nosso blog e redes sociais. Aproveito para indicar nossa pasta no Pinterest só com imagens feministas para você!

Desconstruir os papeis de gênero, quebrar barreiras impostas, mostrar que lugar de mulher é onde e como ela quiser, combater o assédio, o abuso, o feminicídio... Ufa! Parece muita coisa, né? Mas eu tenho certeza que iremos conseguir transformar esse mundo!

E para quem ainda não assistiu, nos todos precisamos ver o ultimo video da revista Girls Girls Girls pois é provavelmente o conteúdo feminista mais impactante deste início de ano 2020!

 

O futuro é feminino! O futuro é das mulheres!

Fica comigo nesse mês de março e vamos juntas!

Até logo!

Deixe um comentário

Todos os comentários serão validados antes de serem publicados
Parabéns, agora você faz parte!