Maternidade, Trabalho e Feminismo: é possivel conciliar?

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Vamos combinar? Ser mulher no século XXI não é fácil. Pleno 2020 ainda precisamos lidar com o machismo e todas as suas implicações e imposições.

Lembro ainda hoje do dia quando em uma das primeiras aulas de Marketing, na universidade, uma professora famosa perguntou para a turma: “Quem das mulheres aqui já se questionou sobre a escolha que teria que fazer? Maternidade ou trabalho?”.

Na hora fiquei em choque com a pergunta e questionei a mim mesma se aquela mulher sabia em que ano estava. Tendo nascido nos anos 80, eu acreditava que esse já não era um problema para as carreiras das mulheres! Na ingenuidade dos meus 20 anos, pensava que vivíamos em um mundo pós-feminista e que as condições de trabalho entre os gêneros eram iguais. A realidade, porém, tratou de me dar um tapa bem dado na cara.

Dez anos de carreira corporativa serviram para me mostrar que: não, não vivemos em um era pós-feminista e que o mundo corporativo é repleto de desigualdade de gênero, o que ficou ainda mais claro quando descobri alguns dados:

  • No mundo, 48,5% das mulheres acimas de 15 anos estão inseridas no mercado de trabalho, enquanto para os homens esse índice é de 75%.
  • No Brasil, embora as mulheres tenham uma média de tempo de estudo maior que os homens, e correspondam a maior fatia da população com ensino superior, elas possuem menor participação no mercado de trabalho.
  • O resultado é que no país, o desemprego é maior entre as mulheres.
  • Essa maior dificuldade de entrar no mercado de trabalho resulta em menor poder de negociação, o que leva as mulheres a aceitarem trabalhos com menor remuneração.
  • Hoje, no Brasil, para cargos similares, a diferença salarial entre homens e mulheres é de 20,7%.
  • Segundo pesquisa, a igualdade salarial no mercado de trabalho só seria alcançada no país em 2085.

Assustador, não é mesmo? Você pode saber mais sobre essas informações aqui.

A maternidade e o trabalho

Grande parte desse cenário que apontei acima tem como causa os papéis de gêneros estabelecidos. As mulheres são as cuidadoras. Cuidadoras do lar, do marido, dos filhos... Isso significa que para nós não é apenas trabalhar fora. É cumprir, diariamente, uma dupla jornada – ou tripla muitas vezes. Não importa quanto cansativo foi nosso dia, ao chegar em casa é esperado que façamos os afazeres domésticos e cuidemos dos filhos. E às vezes a gente só queria era poder se jogar no sofá por cinco minutos.

Por outro lado, no trabalho, há intensa pressão para cumprirmos jornadas longas e não nos ausentarmos um dia sequer. É como se eles falassem: ou seus filhos ou seu emprego.

Diante disso, não é de se espantar que muitas mulheres, especialmente a partir da minha geração, priorizem suas carreiras e abram mão da maternidade. Ser mãe é visto como algo regressivo para uma mulher no ambiente corporativo. Tanto assim que é muito comum pensar que uma mulher que engravida vai “dar uma pausa” na carreira para se dedicar integralmente a família. Na nossa sociedade não concebemos que a mulher tenha uma família e uma atividade profissional exigente ou “bem sucedida”. Claro que existem exceções, mas essas, na maioria dos casos, são de mulheres que contam com condições financeiras para ter uma babá, diarista ou cuidadora. Não raro essas mulheres surgem como exemplos em capas de revista. São as mulheres de sucesso, as mulheres que quebraram barreiras, as mulheres empoderadas que mostram que o feminismo venceu.

O problema desse discurso é que quando olhamos para o todo da sociedade, percebemos que há MUITO o que fazer para alcançar a igualdade entre os gêneros no mercado de trabalho.

Nesse sentido, o feminismo cumpre papel fundamental, impulsionando a luta por demandas que ajudam a corrigir essas distorções.

A mulher, o trabalho, a maternidade e o feminismo

Com tantas obrigações em nosso dia a dia é muito comum acionar o modo automático e levar a vida quase na inércia. Dar “murro em ponta de faca” diariamente cansa mesmo. Tem horas que só queremos um pouco de paz.

É comum encontrar mulheres que rejeitam ou torcem o nariz para o feminismo. Ou então que apoiam as ideias, mas não se enxergam ou se proclamam feministas. No artigo que publiquei sobre o novo feminismo, expliquei um pouco sobre esse movimento que renasceu e vem abalando o mundo na última década. Nele escrevi uma frase que gosto muito: “ser feminista é uma necessidade”.

Sim, eu sei que você está cansada. Sim, eu sei que às vezes a gente cansa de discutir com nossos companheiros, patrões, amigos e família. Sim, eu sei disso tudo, mas a realidade é que essa situação só vai mudar a partir do esforço e da ação de todas as mulheres.

Quer ver um exemplo de uma pauta feminista que contribui para mudar essas relações? Aumentar a licença paternidade para os homens. Até 2016 a licença paternidade no Brasil era de apenas 5 dias. Naquele ano foi sancionada uma lei que aumentou esse período para 20 dias. Isso significa que as mulheres precisam enfrentar o início da aventura de ser mãe sozinhas. É comum ainda, que quando acaba o período de licença-maternidade, que no país são de 3 meses apenas, muitas sofrem pressão para deixar seus empregos. Afinal, quem vai cuidar do recém-nascido? Nesse período em casa, além de segurar sozinha toda a barra que é cuidar de um bebê, a mulher acaba criando automatismos. Automatismos para cuidar de tudo em relação a casa e ao filho, que passam a ser “responsabilidades feminina”. Em casa aconteceu isso. Por mais que me considere feminista e tenha uma relação positiva com meu companheiro, alguns cuidados com as minhas filhas ficam sempre sob minha responsabilidade.

Isso gera o que é um enorme desafio para as mulheres: a carga mental.

A carga mental, ou, como temos de trabalhar, cuidar dos filhos, da casa e do marido / companheiro...

Você pode até nunca ter ouvido falar em carga mental, mas aposto que você sabe muito bem o que é isso e provavelmente convive com ela. A carga mental é quando você tem que pensar na lista de compras, lembrar o horário dos compromissos dos filhos, que é preciso pagar contas da casa, que é preciso lavar roupa, e tudo o que envolve a gestão doméstica. Esse tipo de trabalho invisível para os outros, que muitas vezes consideram essa tarefa natural da mulher, nos esgota e leva ao estresse, prejudicando nosso bem estar, qualidade de vida, carreira e até mesmo relações pessoais.

Em uma entrevista para a revista Cláudia, Eve Rodsky, autora do livro “Fair Play” – com lançamento aqui no Brasil previsto para março -, resumiu muito bem o conceito de carga mental e o seu problema:

Depois de ter filhos, nos, mulheres, assumimos o trabalho extra sem nem questionar, pois a sociedade nos condiciona. Descobri vários termos para isso: carga mental, segunda jornada, trabalho invisível... Este último foi o que realmente me pegou. Como alguém pode valorizar o que não vê? O cerne da questão é que o tempo é medido de maneira diferente entre os sexos. O tempo deles é finito. O nosso, infinito. Seja no Brasil, seja nos Estados Unidos, o tempo das mulheres vale menos do que os homens ”.

Para desenvolver seu livro, Eve Rodsky, procurou entender com ela, feminista, inteligente e casada com um homem que a ajudava, se sentia tão sobrecarregada todos os dias, sem encontrar tempo para si mesmo. Eve começou escrevendo uma lista com tudo que fazia em casa e pediu ajuda de várias outras mulheres para levantar todas as tarefas que necessitam ser realizadas quando se tem filhos e uma vida conjugal. A ideia é, a partir desse levantamento, criar um sistema de gestão organizacional para um casal com filhos, com a mesma metodologia que ela utilizou enquanto elaborava sistemas organizacionais em empresas. 

Segundo Eve esse sistema salvou o casamento dela e hoje ela conta com mais um filho. Confesso que estou louca para ler esse livro quando ele for lançado e acredito que seria importante que os homens também lessem.

Ainda sobre carga mental, quem quiser saber mais sobre o tema eu recomendo muito a obra “A Carga Mental” da quadrinista francesa Emma Clit. A artista aborda o tema de modo leve e didático. Você pode conferir um exemplo do trabalho dela aqui.

Feminismo para além das reivindicações: sororidade no trabalho

Optei por falar da carga mental e da importância de incorporar a pauta do aumento da licença paternidade, não à toa. A dupla jornada está na raiz da desigualdade de gênero no trabalho. Mas para além dessas reivindicações ligadas a estrutura, o feminismo também trás um importante aspecto comportamental que deve ser debatido no mundo corporativo: a sororidade.

A sororidade é definida como a união e a aliança entre mulheres, com base na empatia e companheirismo em busca de alcançar objetivos comuns.

Infelizmente, porém, nós mulheres fomos educadas para entender a outra como rival, ameaça, inimiga... Acha exagero? Procure lembrar dos filmes “teens” estadounidenses das décadas de 1980, 1990 e 00.

No mundo corporativo essa competição feminina é particularmente acirrada. Na minha experiência vi muitas mulheres que estavam sempre tentando ultrapassar a outra sem pensar a longo prazo. Pela minha vivência pessoal acredito também que no mercado de trabalho os homens tendem a ser mais coletivos. Eles ficam sempre em contato, indicam outros colegas, deixam outros passar a frente às vezes, pois sabem que depois alguém vai ajuda-los... E sabe o que é pior? É que “ a rivalidade feminina contribui para manter os homens no poder, na medida em que dificulta a articulação das mulheres. E uma versão cultural de um conceito de guerra, aplicado primeiramente por Cesar no Império Romano: dividir para conquistar."

Além da rivalidade feminina no trabalho ser extremamente cansativa, contribui para o fortalecimento de uma visão negativa sobre a maternidade. Sim, existem mulheres que aproveitem o fato da outra estar gravida para crescer na carreira.

E isso é uma atitude mesquinha e egoísta que acaba se voltando contra a própria pessoa que a pratica. Afinal, essa mulher está contribuindo para a manutenção da desigualdade no mercado de trabalho.

Sororidade é a chave. Uma sobe e levanta a outra!

Para além do feminismo...

É preciso notar, porém, que a questão da mulher, maternidade e o trabalho, passa pelo feminismo, mas é um problema que além dele. É preciso repensar a relação com o trabalho.

A realidade é que o capitalismo produtivo que se estabeleceu após a Revolução Industrial se transformou ao longo do tempo, porém, mantendo a premissa da busca pelo lucro infinito. O resultado é que mesmo com todas as tecnologias existentes, continuamos a trabalhar muito, sobrando a menor parte de nosso dia para cuidarmos dos outros aspectos da vida e do nosso interior.

E é esse mesmo tipo de pensamento que faz com que alguns acreditem que a licença maternidade é “um benefício”. Ou então, que leva a milhões de desempregados a sentirem que a sua existência não vale nada. Para esse sistema, quem não está trabalhando é inútil. É o famoso ditado “é o trabalho que dignifica o homem”.

Construir relações de trabalho mais humanas e justas, que saibam entender a especificidade de cada um é um caminho que, ao meu ver, é inevitável diante das transformações que estão prestes a ocorrer no mundo.

Quem sabe, assim, alcancemos a igualdade de gênero no trabalho antes de 2085!

Até a próxima!

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