A escolha de não ser mãe

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A trajetória das mulheres até aqui não foi fácil. A maioria das civilizações e sociedades se constituiu envoltas em um modelo patriarcal, que coloca a mulher em uma posição de submissão aos homens. Ao ponto que durante séculos a maternidade foi encarada como uma questão compulsória.

Ser mãe não foi uma escolha para muitas mulheres. Supunha-se que se uma pessoa é mulher, ele deve ter filhos, quase como um compromisso ou obrigação social. Aquelas mulheres que não queriam ter filhos ou não conseguiam, eram vistas com desprezo, como se tivessem fracassado no papel que a vida lhes reservava. Desde então, muita coisa mudou. Movimentos e feministas de diferentes partes do mundo foram fundamentais para a conquista de direitos e mudanças no enxergar do feminino. Nos últimos anos vivemos a nova onda do feminismo que vem cumprindo papel essencial na formatação do mundo para as próximas décadas.

Ao que tudo indica estamos sendo testemunhas de um processo que pode resultar em um mundo mais justo, igualitário, seguro e livre para as mulheres. São muitas as mudanças em poucos anos, mas ainda há muito a ser feito. A decisão de ser mãe, por exemplo, continua a gerar polêmica.

Maternidade não é obrigação, é escolha

Parece incrível que pleno 2020, mesmo com todas as transformações do mundo na última década, ainda seja necessário discutir a apoderação do corpo das mulheres. Não faltam tentativas de controlar e subjugar nossos corpos, que às vezes nem parecem que nos pertencem. É o caso das mulheres que anunciam que escolheram não ter filhos. Sempre que elas optam por explicitar essa decisão, são bombardeadas por caras surpresas, olhares de reprovação e uma montanha de clichês dos mais variados.

“Ah, mais tarde você muda de ideia”; “Mas por quê? Você não gosta de crianças?”; “Ah é que você não encontrou a pessoa certa ainda”; “Quem vai cuidar de você na velhice?”; “Como assim? A maternidade é um instinto natural da mulher”.

Se você já presenciou esse tipo de dialogo, seja como sujeito ou testemunha, sabe como essa é uma situação constrangedora. São os mais variados artifícios e malabarismos argumentativos para disfarçar que para o senso comum, ser mãe ainda é uma obrigação da mulher.

“Você precisa ser mãe para se realizar quanto mulher” e de que “você só conhece o amor verdadeiro quando se torna mãe”, são frases que refletem a mulher como procriadora e contribuem na construção uma visão idealizada – portanto, deturpada – da realidade.

Ser mãe não é padecer no paraíso. Ser mãe é assumir uma responsabilidade que dura à vida a toda. Responsabilidade que exige abrir mão de muitas coisas, especialmente quando a criação dos filhos não conta com a ajuda do pai – em 2015 o Brasil contava com 11,6 milhões de mães solos, segundo o IBGE.

Assumir essa responsabilidade deve ser uma escolha. Não há outra opção fora disso no ano de 2020.

Se uma mulher escolhe não ter filhos porque quer focar em sua carreira, porque quer viajar o mundo, porque quer “ser livre”, porque tem dúvidas, tudo bem. Seja qual for o motivo ele é pessoal e só diz respeito a ela.

“Ah, mas se um dia ela mudar de ideia?”, tudo bem também. Quem vai ter de lidar com um suposto arrependimento é ela, lembrando ainda que a adoção e o congelamento de óvulos são opções que abrem a possibilidade de ser mãe mesmo acima dos 40 anos.

Precisamos formatar de uma vez essa construção de que a mulher vem no mundo para ser mãe, nos reduzindo a esfera biológica. Ser mãe é uma escolha e uma construção, e optar por não ser não faz de ninguém menos mulher. Nem mal amada, nem ranzinza, nem fria, ou qualquer outro desrespeito machista.

O poder de escolha e os privilégios

Tudo isso que colocamos acima nesse texto pode soar óbvio, mas infelizmente o poder de escolha ainda é um privilégio. Para as mulheres periféricas a maternidade muitas vezes não é uma escolha. Como se não bastasse, essas mulheres ainda sofrem pela incapacidade de seguir um padrão idealizado muito distante da realidade de quem precisa lutar diariamente para garantir a comida na mesa.

Costumamos acreditar que o estado de direito e a democracia nos tornam livres. O problema é que nesse modelo o quanto de liberdade você tem acesso está diretamente ligado a quanto dinheiro possui. Quanto menor sua conta bancária, menos livre você é. A relação da escolha da maternidade com os diferentes contextos de vidas e de realidades foi trabalhada de forma brilhante nesse texto da jornalista Ana Paula Ferreira de Melo. Vale a pena clicar e conferir.

É preciso o esforço conjunto de todas e todos para que essa realidade se modifique e o poder de decisão sobre ser mãe ou não, contando com condições dignas para a criação dos filhos em caso positivo, alcancem a todas as mulheres, de todas as raças e classes.

Deixem as mulheres decidirem sobre seus corpos e suas vidas. Respeitem nossas escolhas.

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