Como criar crianças antirracistas?

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No futuro o ano de 2020 ganhará destaque nos livros de história. E não apenas pela pandemia de Covid-19 que parou o mundo, mas também por ser o ano em que reconhecemos o racismo estrutural presente nas sociedades ocidentais. Em maio, o brutal assassinato de George Floyd em Mineapollis por um policial branco, levou milhões de pessoas às ruas nos Estados Unidos para protestar contra o racismo. O movimento Black Lives Matters, que ficou conhecido mundialmente em 2014 após uma série de protestos devido ao assassinato de Eric Garner, também sufocado pelas forças policiais durante uma abordagem, esteve à frente das mobilizações de 2020, fazendo tremer o asfalto das principais cidades norte-americanas e levando a grandes movimentos nas redes sociais. Com adesão de esportistas, artistas, celebridades e políticos de diferentes espectros, a movimentação contra o racismo nos EUA vem sendo extremamente significativa e até mesmo acende a esperança de outro futuro. Não podemos descartar a influência que o que ocorre naquele país – principal potência econômica e militar do mundo – tem sobre outras partes do mundo.

Assim, quando a sociedade norte-americana, onde os direitos civis da população negra só foram adquiridos há pouco mais de 50 anos e a questão racial influencia profundamente o acesso as oportunidades ainda hoje, se levanta contra o racismo - em um momento onde a pandemia escancara ainda mais as desigualdades e movimentos supremacistas brancos ganham força e tem até o apoio do presidente em exercício – isso ecoa com força pelo mundo.

A urgência de uma educação antirracista

Vamos combinar? Quando falamos em racismo estrutural não é preciso olhar para o norte. A sociedade brasileira é, sem dúvidas, um terreno fértil para a discriminação e o preconceito contra a população negra. Por aqui a questão ganha contornos de crueldade com o uso da máscara da democracia racial e o mito do país miscigenado onde todos vivem felizes e iguais. Máscara e mito que derretem de forma instantânea sobre a frieza das estatísticas :

E esses são apenas alguns dados que apontam para a gigantesca desigualdade racial brasileira, fruto e reflexo do racismo estrutural presente no país, que foi a última nação do Ocidente a abolir a escravidão e no pós-abolição negou aos negros libertos o acesso ao mercado de trabalho assalariado, promoveu o encarceramento em massa e adotou políticas voltadas ao branqueamento.

O racismo brasileiro não só conta com profundas raízes históricas, como também com a participação ativa do estado, desde sempre controlado e voltado a branquitude e os setores de elite que sonhavam em serem europeus – hoje, norte-americanos.

A destruição do racismo brasileiro não é um processo simples. A lógica é tão perversa que não apenas parte expressiva dos que se beneficiam dos privilégios dessa estrutura de opressão violenta negam sua existência, mas também indivíduos que sofrem diretamente com os efeitos nocivos destas também reproduzem essa narrativa. O trabalho é árduo e exige, entre outras medidas urgentes, a ascensão de uma educação antirracista, que ensine não apenas o respeito ao próximo, independente de suas origens, como também questione as bases que alicerçam o racismo estrutural.

Como educar crianças antirracistas?

Para quem nunca sofreu com o racismo e vive uma vida privilegiada descontruir o racismo e educar crianças antirracistas não e uma questão simples. Muitas vezes estamos reproduzindo o sistema de opressão sem nos dar conta disso. Apesar da minha postura antirracista e de não compactuar com qualquer forma de preconceito e discriminação, posso não ser a melhor pessoa a falar sobre o tema. É preciso assumir, contudo, que o racismo é um problema da branquitude, bem como a responsabilidade de desconstruí-lo, o que passa por educar nossos filhos para que eles sejam antirracistas.

O primeiro passo para isso é reconhecer o racismo, sem medo de usar e falar sobre os temas que permeiam a questão com as crianças. Fingir que o problema não existe, não vai fazer com que ele desapareça, pelo contrário, normaliza e reforça atitudes, narrativas e realidades que sustentam o racismo estrutural. Para iniciar essa conversa, no entanto, precisamos assumir nossos privilégios e preconceitos intrínsecos. Sem isso, é impossível ser antirracista ou educar uma criança antirracista. É preciso estar sempre vigilante e adotar um olhar crítico sobre nós e nossas atitudes. Entenda: é impossível não ser racista tendo sido criado em uma sociedade racista.

Essa postura de vigilância sobre si própria é bastante incômoda. Afinal, não é fácil percebermos em nós aquilo que repudiamos. Olhar no espelho e percebermos que somos parte do monstro é um choque, mas um choque necessário que abre outras perspectivas.

Aqui é importante ler autores e intelectuais negros, revisitando a história sobre a perspectiva dos oprimidos. Até hoje nas escolas ainda aprendemos a história a partir da perspectiva dos opressores, mesmo que há décadas a produção acadêmica tente produzir conhecimentos sobre outras perspectivas. Sim! Para educar crianças antirracistas você primeiro precisará educar a si mesmo e transformar sua visão sobre o mundo que o cerca.

Você pode começar o diálogo sobre o racismo com seus filhos a partir da perspectiva das injustiças, lembrando sempre que a criança não está apartada do mundo. Mesmo com pouca vivência os pequenos são capazes de notar aspectos sociais que os cercam, procure entender como e o que eles já enxergam para conduzir o diálogo.

Uma questão muito importante nesse processo é a convivência com a diversidade o que não costuma ocorrer nos espaços frequentados pela classe média alta branca. Em escolas particulares, restaurantes da moda, shoopings e em bairros centrais é comum que os corpos negros existam nas condições de subalternos – eles são os garçons, os funcionários da limpeza, vendedores, empregados domésticos, etc. Muitas vezes não damos a devida importância a isso, mas essa vivência é um dos grandes pilares do racismo estrutural, levando a uma construção inconsciente de uma relação hierárquica, onde os negros estão a serviço dos brancos. Assim, frequentar espaços onde os corpos diversos estejam em situação de “igualdade” é de extrema importância para uma educação antirracista. Não deixe que seu filho cresça, se desenvolva e viva na bolha da branquitude. Não seja um reprodutor de privilégios.

Com relação à diversidade, também parece ser necessário que as crianças também conheçam e consumam conteúdos e cultura produzidos por pessoas negras, tendo acesso a outras perspectivas, olhares e narrativas. Você encontra dicas incríveis de literatura infantil escrita por autores negros e/ou que ajudam a descontruir o racismo aqui e aqui. Para aquela fase que os pequenos não abrem mão de ver desenhos, você pode apostar em animações com protagonistas negros.

Também não podemos se esquecer do brincar para o desenvolvimento e construção de mundo das crianças, sendo esse também um espaço que deve ser aproveitado na educação antirracista. A falta de representatividade negra na indústria de brinquedos é bem conhecida. Até pouco tempo atrás era muito difícil você encontrar uma boneca negra se quer nas grandes lojas do setor. Isso vem mudando aos poucos, mas achamos que tão importante quanto oferecer brinquedos que retratem a população negra é também valorizar quem atua nesse front por motivos que vão além de atender um nicho de mercado – como acontece com muitas grandes marcas. Por isso, nós recomendamos as maravilhosas Loja Aneesa e Preta Pretinha.

Destruir o racismo não é uma tarefa fácil, mas é uma tarefa urgente. Não eduque seus filhos apenas para que eles não sejam racistas. Eduque as crianças para que elas sejam antirracistas.

Vamos juntos construir outro futuro possível!

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