Educação feminista para transformar o mundo

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Who run’s the world? Girls! Com certeza você já ouviu ou leu essa frase por aí nos últimos anos. E não apenas por ser o refrão de um hit de um dos maiores nomes do pop no século. A nova onda feminista colocou as mulheres à frente e abriu um novo momento no mundo. Graças ao poder das novas mídias e tecnologias, a mensagem de igualdade entre os gêneros e combate ao machismo se espalhou pelo planeta como um rastilho de pólvora, trazendo para o cotidiano, palavras como empoderamento e sororidade e as ideias de que a mulher é dona do próprio corpo e que os papéis de gênero estabelecidos são impostos.

De cinco anos para cá, muita coisa mudou. De uma forma que poucas vezes havia ocorrido na história. Mas isso não quer dizer que o patriarcado foi derrubado, que o assédio, o abuso e a violência deixaram de existir ou mesmo que conquistamos a igualdade no mercado de trabalho. Ainda há muito, mas muito, a ser feito. E para alcançar o mundo que desejamos, onde homens e mulheres tenham os mesmos direitos e condições, em que não seja preciso viver com medo de sair na rua e a misoginia não seja material para entretenimento, uma educação feminista não apenas é necessária, como urgente.

Educação feminista para transformar o mundo

Não se nasce mulher, torna-se. A famosa frase de Simone de Beauvoir, tantas vezes repetida, escancara a ideia de que os gêneros nos seres humanos são socialmente construídos. Ao contrário de outras espécies, nossos papéis não são definidos apenas por aspectos biológicos. Isso significa que ao longo da história a mulher assumiu um papel imposto pela dinâmica social. Assim como os homens. Exagero? Pare por um segundo e pense no que vem a sua cabeça quando você vê a palavra “feminino”. Agora repita o exercício com a palavra “masculino”. Se você nasceu antes dos anos 00 a chance de ter pensado em estereótipos é grande.

Quando nascemos, somos como uma tela em branco, preenchida conforme descobrimos o mundo e nos desenvolvemos. Bom, que visão uma criança vai ter sobre a mulher, crescendo em um meio em que os brinquedos das meninas são rosa e muitas vezes ligados as tarefas domésticas? Para piorar, a visão passada por esses brinquedos muitas é reforçada pela própria dinâmica familiar, gerando um ciclo vicioso. Sim, a indústria dos brinquedos é um dos principais sustentáculos do patriarcado ao manter uma visão antiquada de diferenciação de brinquedos por gêneros que são carregados de estereótipos, do tipo bonecas para as meninas, carrinhos e armas para os meninos.

O mesmo fenômeno é bastante visível na moda, embora recentemente seja possível encontrar no setor movimentos bem estabelecidos de marcas, estilistas e outros atores, que questionam essa realidade e dão vida a uma moda agênero, tanto para adultos quanto para crianças. A indústria cultural também não fica de fora. Embora haja avanços incríveis na última década – muitos programas TV, músicas e artistas dos anos 90 e início dos 00 hoje seriam sumariamente “cancelados” – ainda encontramos visões de gêneros que reforçam e propagam o machismo.

Parece certo que em um futuro próximo muito ainda vai ser modificado. Mas enquanto isso não ocorre, ou melhor, justamente para que isso ocorra, é preciso construir a base das mudanças, focando em uma educação feminista para que as próximas gerações sejam capazes de transformar o mundo em um lugar melhor para todos. Não existem atalhos.

A educação feminista começa em casa

Como é possível perceber, criar os filhos longe de todo tipo de sexismo é uma missão impossível, uma vez que ele ainda está impregnado na sociedade e se manifestando livremente, seja na internet, TV ou mesmo nas famílias. Mas isso não deve ser um ponto de desânimo, pelo contrário. Justamente pela presença ainda tão forte do machismo e misoginia, que é preciso redobrar os esforços para oferecer uma educação feminista – que não, não significa ensinar que as mulheres são melhores que os homens. Parece absurdo ter de dizer, mas vale repetir: feminismo não é igual o machismo.

O primeiro ponto que precisamos ter claro é que não existe idade certa para falar de feminismo. Pelo contrário, bons hábitos são instalados cedo, muito cedo. O segundo ponto é: uma educação feminista é para todos, inclusive para os homens – ou talvez, principalmente para os homens, que são os reprodutores do machismo e da violência contra a mulher. Outra questão fundamental é que oferecer a educação feminista para os filhos não é uma obrigação apenas para mãe. Os pais têm um papel importante para educar através do exemplo e mostrar que não existe apenas um modelo de masculinidade. O pai deve mostrar que o respeito as mulheres é essencial, que elas não são objetos, que o homem pode ser frágil, pode demonstrar fraquezas, pode sentir e chorar. Ele também deve realizar as tarefas de casa, dividindo as responsabilidades e mostrando que lugar de homem também é no fogão, pia, lavanderia, etc. Afinal, saber cuidar de si mesmo e do local onde mora é o mínimo que se espera de um adulto funcional. Meninos com esse tipo de exemplo em casa têm mais chances de reproduzirem modelos de paternidade positiva e de se tornarem indivíduos mais bem resolvidos e empáticos, beneficiando a si mesmos e o seu entorno.

Sim, por que educar para construir um mundo feminista também implica em desconstruir a masculinidade tóxica existente que reforça uma sociedade patriarcal baseada no antigo conceito de homens em provedores – e, portanto, portadores de direitos – e mulheres como cuidadoras – e, portanto, submissas e servis.

Lutar para desconstruir estereótipos e segmentações de gênero em um mundo envolto neles não é uma tarefa fácil. Para isso é preciso sair da zona de conforto e muitas vezes procurar soluções que estão longe do mainstream. Por exemplo: sabemos que indústria de brinquedos investiu fortemente na segmentação de produtos para meninos e meninas na década de 1980. Essa medida se mostrou muito lucrativa. Afinal, com a segmentação se acaba com a intercambialidade. Ou seja, os pais não vão passar para o filho mais novo a bicicleta rosa com cestinha da filha mais velha. Sim, causa indignação aos olhos de hoje, mas a propagação dos papéis de gênero, do machismo e da submissão da mulher, rendeu muito dinheiro a muitas empresas. E não sejamos inocentes: em uma sociedade de consumo, os produtos e as propagandas contam com um poder de influência gigantesco.

Hoje as coisas começam a mudar no mainstream, graças à chegada de novas gerações a postos de comando nas empresas e principalmente pelo avanço da era da informação, com a popularização da internet que vem modificando comportamentos, incluso os de consumo, pressionando as corporações. Enquanto a grande mudança não vem, contudo, a boa notícia é que existem excelentes iniciativas das mais variadas que são capazes de te ajudar a criar seus filhos de outra forma e somar na corrente da inevitável transformação. Você não está sozinha na busca por uma educação feminista, pode acreditar. Ao diálogo aberto sobre o feminismo, papéis das mulheres e dos homens, gêneros e auto aceitação – ferramenta indispensável no processo educativo – somam-se iniciativas como roupas e brinquedos sem gênero, desenhos que abordam o feminismo e a diversidade, etc.

E vale sempre lembrar: você não precisa obedecer a grande indústria, ou seja, você pode SIM dar bonecas ou cozinhas para os meninos brincarem, bonecos de super-heróis para meninas, vestir seu filho com roupas rosa, sua filha com roupas azuis, e assim por diante.

Referências – por que o conhecimento muda as pessoas, que mudam o mundo

Mesmo que as mulheres sejam capazes de entender o feminismo pela experiência empírica, é sempre bom contar com referências que ajudem a compreender, se aprofundar e trabalhar o tema para oferecer uma educação feminista às novas gerações. Para te ajudar nessa jornada, separei abaixo algumas referências que vão te ajudar a expandir seu conhecimento para ser mais uma formiguinha trabalhando para mudar o mundo!

Para as mães e pais, vale muito a pena ler os livros Sejamos Todos Feministas e Para Educar Crianças Feministas – Um Manifesto da escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, Quem Tem Medo do Feminismo Negro? da filósofa brasileira Djamila Ribeiro, O Feminismo É Para Todo Mundo: Políticas Arrebatadoras, da estadunidense Bell Hooks e Feminismo: Um Guia Gráfico, uma graphic novel de Cathia Jenainati e Judy Groves.

Todas as obras indicadas acima se destacam por abordar os principais temas relacionados ao feminismo de forma simples sem que haja perda de conteúdo, o que é ótimo para compreender as questões e assim melhor incluí-las na educação das crianças. Mas não para por aí! Hoje no mercado editorial existe uma série de obras voltadas as crianças e adolescentes que trabalham questões importantes como o empoderamento feminino e a desconstrução de papéis de gênero impostos.

Para os pequenos (meninas E meninos, claro!) destacamos: Lute Como Uma Princesa: Contos de Fadas Para Crianças Feministas, de Vita Murrow, Grandes Mulheres Que Mudaram o Mundo e Grandes Mulheres Que Fizeram a História, de Kate Pankhurst, Meninas Incríveis, da Katia Canton.

Um documentário que eu sempre recomendo é "The Mask you live in" disponivel no Netflix Brasil, é sobre esse conceito de masculinidade (totalmente cultural, construido pela sociedade) e como ele pode destruir os garotos ao longo da infância e da adolescência. 

 

Ensinar o respeito e a igualdade é à base de uma educação feminista, que é para todos, independente do gênero. Vamos juntos encarar esse desafio e começar HOJE a construir o mundo que queremos no futuro?

Machistas, não passarão! Nós, passarinho.

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